Hospital Jayme da Fonte

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Data publicação: 02/12/25 | Fonte: Revista Folha Saúde

Saúde mental caminhos para o equilíbrio

O debate sobre saúde mental ganhou espaço na pandemia, com a percepção de que o sofrimento psíquico afeta a capacidade de viver, amar e trabalhar

Por Isabelle Barbosa

Em um mundo cada vez mais acelerado, hiperconectado e exigente, a saúde mental passou de tema marginalizado a preocupação central da sociedade contemporânea. Mas, apesar da visibilidade crescente, ainda há muitas dúvidas sobre as origens, impactos e soluções para os transtornos mentais.

Ritmo de trabalho, caos no trânsito, uso constante de telas, redes sociais, cenário econômico e político. Aquilo que chamamos de "vida normal" pode levar ao adoecimento mental silencioso. E não é exagero.

Os sintomas estão por toda parte, seja nas crises de ansiedade, em quadros de depressão ou no esgotamento profissional. É o que explica o médico psiquiatra Vitor Hugo Stangler, do Hospital Jayme da Fonte.

"Os transtornos psiquiátricos, em geral, são multifatoriais. Eles têm origem genética, sim, mas também envolvem fatores ambientais e psicológicos, como ambientes estressantes, privação de sono, luto e traumas na infância", explica o médico.

Psicóloga, especialista em perdas, lutos e manejo da saúde mental no ambiente organizacional, Mariana Clark destaca que aspectos sociais, econômicos e políticos afetam o bem-estar da sociedade.

"Temos uma estrutura que não nos oferece, do ponto de vista social, econômico, educacional, de saúde, de segurança, aquilo que a OMS conceitua sobre saúde mental, que é um estado de bem-estar", afirma a profissional.

O psicanalista, professor de psicanálise e psicopatologia do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Christian Dunker, pontua que alguns transtornos não surgem do nada. Entrelaçam-se com vidas marcadas por perda, violência e exclusão.

"Situações de racismo, de bullying, de assédio moral e sexual são muito favoráveis para o desencadeamento e a formação de transtornos mentais", destaca o especialista.

Em todo o mundo, mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum problema de saúde mental. As mulheres são globalmente as mais afetadas - 14,8% de toda a população feminina, contra 13% dos homens.

Os dados integram o relatório "World Mental Health Today", divulgado em setembro de 2025 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a partir de levantamentos de 2021.

Ansiedade (4,4%) e depressão (4%) são os transtornos mentais mais prevalentes. O documento aponta que 359 milhões de pessoas no mundo convivem com ansiedade e outras 332 milhões, com depressão.

Pandemia

Na pandemia da Covid-19, os sofrimentos se multiplicaram, e o debate sobre saúde mental começou a receber mais foco com a percepção coletiva de que o sofrimento psíquico afeta diretamente a capacidade de viver, amar e trabalhar.

"Vimos crescimento de casos de transtornos obsessivo-compulsivos, ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e burnout, especialmente entre profissionais da linha de frente", relata o psiquiatra Vitor Hugo Stangler.

Para o psicanalista Christian Dunker, a pandemia agravou quadros pré-existentes. "Depressivos ficaram mais deprimidos, ansiosos ficaram mais ansiosos, e isso em escala alarmante", aponta.

Hiperconectividade

Entre os vilões do bem-estar mental contemporâneo está a hiperconectividade. O Brasil é um dos países que mais usa redes sociais no mundo. Essa conexão constante tem um preço alto.

"Nos alimentamos de um conteúdo que, na maioria das vezes, não é nutritivo do ponto de vista existencial. A gente se compara e isso leva a sentimentos de raiva, impotência, baixa autoestima e tristeza", alerta Mariana Clark.

O psicanalista Christian Dunker destaca que o excesso do uso de telas se tornou um elemento corrosivo da saúde mental contemporânea.

"Estudos mostram que o excesso de telas piora a saúde mental. E quando isso se junta às práticas neoliberais de produtividade infinita, temos um ataque pelas duas pontas: mais exigência emocional e menos espaços de restauração", explica Dunker.

Burnout

Resultado das pressões do ambiente de trabalho, o burnout está entre os transtornos mais prevalentes na atualidade e associado ao excesso de demandas e à hiperconectividade, segundo afirma o psiquiatra Vitor Hugo Stangler.

"As pessoas levam pendências para casa, recebem mensagens fora do horário de trabalho e vivem sob alta pressão, sem espaço para descanso ou prazer", analisa.

O psicanalista Christian Dunker destaca a importância da NR-1 no ambiente corporativo. A norma regulamentadora de segurança e saúde no trabalho estabelece diretrizes gerais para o gerenciamento de riscos ocupacionais.

No ambiente profissional, o estigma ainda é um grande obstáculo. A alta cobrança por performance e positividade é, segundo a psicóloga Mariana Clark, incompatível com a condição humana.

"Vivemos em uma sociedade que exige felicidade o tempo todo. Isso gera isolamento, inadequação e solidão para quem está passando por dor", afirma Mariana. Responsabilidade compartilhada entre indivíduo e organizações é o caminho.

"Promover apoio psicológico, flexibilização das jornadas de trabalho, ter espaços de escuta e descanso favorecem um ambiente mais saudável", destaca a psicóloga, neuropsicóloga, mestre, doutora e pós-doutora em Psicologia, Pompéia Villachan Lyra.

O sofrimento mental se manifesta de formas variadas, afetando o trabalho, os relacionamentos e o próprio senso de vida. Pompéia Villachan Lyra destaca os principais sinais de alerta:

"Alterações no sono e no apetite, irritabilidade constante, isolamento social, fadiga sem causa física e perda de interesse em atividades. Se acontecem com mais frequência, são sinais de alerta", aponta a psicóloga.

Prevenção

Para mitigar os efeitos negativos da vida cotidiana, seja na escola, faculdade, trabalho e relacionamento, a psicóloga Mariana Clark aponta o ato de auto-observação.

"É um processo de autocuidado, onde mergulhamos dentro da gente para entender quais são os nossos ruídos, barulhos, identificar gatilhos, para que possamos falar com mais clareza sobre nossos limites", avalia Clark.

Já o psiquiatra Vitor Hugo aponta que mitigar os efeitos da rotina na saúde mental exige responsabilidades do poder público, empresas e de cada indivíduo.

"O papel do Estado vai além do tratamento. Deve haver prevenção, com políticas públicas voltadas para sono adequado, atividade física, alimentação e educação emocional nas escolas", defende o psiquiatra.

O relatório "World Mental Health Today" destaca que, em 2021, cerca de 727 mil pessoas perderam suas vidas por suicídio. Mais da metade (56%) dos casos aconteceram antes dos 50 anos.

O psicanalista Christian Dunker faz um chamado à atenção e ao acolhimento, e aponta caminhos para viver com mais leveza, evitar práticas de autossabotagem e, sobretudo, pedir ajuda.

A psicóloga Pompéia Villachan Lyra reforça que o processo de busca por bem-estar envolve escuta profissional, autoconhecimento, autocuidado e, em alguns casos, medicamentos.

"O espaço de psicoterapia pode ajudar a fazer escolhas mais acertadas em busca da qualidade de vida, da saúde mental, do bem-estar", afirma a psicóloga.

O psiquiatra Vitor Hugo alerta sobre o crescente uso da inteligência artificial (IA) para suplementar serviços de psicoterapia.

"A IA não substitui o processo terapêutico. Pode até ajudar no aconselhamento ou na sistematização de tarefas, mas não é substituta da escuta qualificada de um terapeuta", destaca Vitor Hugo.